Um lugar com história
O lugar de Castromil, localizado na zona NW de Portugal, 23 km a Oriente da cidade do Porto, faz parte
do distrito do Porto, concelho de Paredes e freguesia de Sobreira. As minas de ouro situam-se num
pequeno monte alongado coberto por matos e árvores (principalmente pinheiros, giestas e eucaliptos), a Norte
do rio Sousa e da linha do caminho-de-ferro do Douro.
O jazigo aurífero de Castromil foi explorado no passado, pelo menos desde o tempo dos Romanos,
estando as marcas desses trabalhos antigos preservadas no local.
A riqueza em minério no subsolo da Península Ibérica, particularmente no Noroeste Peninsular, foi
determinante para expedições de vários povos que possibilitaram a sua identificação, localização e
consequente exploração.
As evidências arqueológicas testemunham que, pelo menos, há cerca de 2000 anos, os Romanos
desenvolveram actividades de extracção aurífera no concelho de Paredes, designadamente no Couto das
Banjas, na Serra de Quinta e nas Covas de Castromil, da freguesia da Sobreira, transformando a
exploração numa indústria extractiva sistemática assente numa complexa estrutura política, económica e
social.
Durante o domínio romano o regime de propriedade das minas era normalmente estatal e de exploração
directa, como em Três Minas (Vila Pouca de Aguiar), ou arrendadas a particulares, como testemunha o
regulamento inscrito em placas de bronze das Minas de Aljustrel.
As Covas de Castromil, designação popular, correspondem, conforme o próprio nome indica, à existência
de grandes covas/buracos (cortas) resultantes das técnicas de extracção utilizadas pelo romanos, que
decorrem do desmonte a céu aberto de grandes quantidades de rocha.
As explorações mineiras Romanas subterrâneas evidenciam um desmonte de vários filões, nos quais
ainda se podem ver hoje dezenas de concavidades onde estariam instalados equipamentos de
iluminação, muito provavelmente lucernas.
Parece ter sido utilizado o método de exploração seguido de enchimento (que ainda é empregue nas
minas subterrâneas actuais, sendo conhecido como o processo “cut and fill”) para assegurar a
estabilidade dos trabalhos mineiros seguintes. Esta estabilidade também era obtida pelo método de
sustentação por pilares, em que, parte do minério mais pobre e mais duro era deixado para trás.
As características do ouro não ser visível à vista desarmada, por um lado, e de estar misturado com
outros metais dos quais necessitava de ser purificado, entre outras, põe em evidência o conhecimento
tecnológico necessário para a sua exploração. Já na altura, como agora, o aproveitamento de um recurso
geológico exigia do seu conhecimento científico profundo.
O tratamento do minério de Castromil, necessitaria de uma moagem muito fina, à dimensão de silte e
argila, para que houvesse a libertação das partículas de ouro; após a moagem seria necessária a
utilização de água para uma separação hidrogravítica, baseada na maior densidade do ouro para a sua
separação do resto das partículas menos densas. A aglutinação das partículas de ouro (como se fosse
uma poeira) seria obtida pelo chumbo, que tinha ainda a função de através da copelação purificar o ouro
dos outros metais tais como a prata.
As grandes quantidades de escórias encontradas, resultantes do tratamento metalúrgico do minério, são
essencialmente de dois tipos: umas de carácter silicioso, pouco densas (ricas em espaços vazios), com
baixo teor em Au; outras, muito mais raras, de grande densidade e com alto teor em Au, constituídas por
uma liga metálica à base de Fe e As. A identificação de toda a rede de galerias subterrâneas, dos
inúmeros poços, e eventualmente a confirmação de canais de água para abastecimento dos trabalhos
mineiros, aguardam o desenvolvimento dos trabalhos de campo, quer dos geólogos, quer dos
arqueólogos, de forma a permitirem uma melhor compreensão da história deste sítio.
Supõe-se que para esta actividade extractiva sistemática eram necessárias centenas de pessoas, durante
muitos anos, o que certamente e à luz do que era feito no Couto de Três Minas ou em Aljustrel, exigia a
presença de destacamentos militares para organizar, vigiar e manter a ordem. A maioria dos
trabalhadores poderá ter sido escravos ou mesmos indígenas aculturados, geridos pelo
procurator
metallorum
, funcionário romano e representante de Roma.
Reconhecendo-se que nas Minas de Castromil, homens (romanos) desempenharam funções de mineiros,
de arquitectura e de engenharia, de gestão política e económica, de organização, vigilância e defesa,
aguardam-se os resultados dos trabalhos de prospecção e investigação arqueológica que poderão
contribuir para a identificação dos locais onde habitavam, oravam e enterravam os seus mortos.
Até aos meados do século XX, altura em que se realizaram prospecções geomineiras, não são
conhecidas outras explorações.
A divulgação deste património geológico mineiro, actualmente em curso, resulta de um protocolo entre o
Município de Paredes e o Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto.
Para além da exposição patente na Casa da Cultura de Paredes, que estará na Sobreira a partir de
meados de Maio, o conhecimento deste património passa, também, por uma visita às minas e ao meio
envolvente, revelando as potencialidades que este sítio oferece para a implementação de um Parque
Temático que constituirá um importante pólo de valorização e desenvolvimento turístico-cultural.